FÍiSTULA COMO RESULTADO DA DESIGUALDADE SOCIAL EM ANGOLA

Introdução
Este artigo foi feito com o objectivo de fazer uma reflexão em torno da Fístula obstetríca,condição causada especialmente na vida das mulheres e meninas residentes em zonas periféricas, e perceber o cotidiano que muitas mulheres angolanas vivenciam como consequência da desigualdade do género e iniquidade de saúde, e ao mesmo tempo orientar os possíveis meios de prevenção, tratamento e sugestões para mitigação da doença.
*Fernanda Carlos apanhou a Fístula obstetríca em 2002 “minha vida estava mal, a pessoa não podia andar a vontade, tinha que estar vestida de pano a toda hora e em todo momento. Esta doença é tão vergonhosa que nem na minha mãe falei devidamente ”disse ela.
*Joana (Nome fictício), Uma menina de 13 anos de idade, cuja os pais pobres e sem escolaridade, oferecem a menina para casar com um homem de 60 anos, que constantemente a estuprava. A garota ficou grávida e sofre fístula obstétrica após o parto. Consequentemente, foi abandonadafoi abandonada pelo marido e discriminada pela sociedade. “Quero minha infância de volta, queria sorrir novamente, cantar, sentar com meu pai e minha mãe, você pode me dar isso?” indaga a menina quando questionada sobre a sua constante tristeza.
Marcado aos 23 de Maio como sendo o dia internacional para acabar com a Fístula obstétrica, definida por especialistas como sendo uma lesão grave prevenível entre a bexiga e a vagina ou entre o reto e a vagina, provocada por um parto demorado, obstruído e sem assistência médica e que afecta mais de 8 mil mulheres em todo o mundo, particularmente em 49 paises de África, Asia e Regiao ArabeÁrabe. Por sua vez, a chefe da Agência de Saúde Sexual e Reprodutiva das Nações Unidas, o UNFPA, afirmou que pessoas que sofrem da condição continuam enfretando estigmas sociais devastadores.“vergonha, isolamento e segregação estão entre as indignidades enfrentadas pelas centenas de milhares de mulheres e meninas do mundo que sofrem de fistula obstétrica” disse Natalia Kanem, Directora Executiva do Fundo de População das Nações Unidas(UNFPA) em comunicado divulgado, com o lema “acabar com a desigualdade de género!
Acabar com as iniquidades em saúde! Terminar a Fistula agora”.
Em Angola, esta condição adquirida durante o parto transforma a vida de milhares de mulheres e meninas num permanente sofrimento devido ao estigma que lhes fica associado e que as relega a exclusão social,pois esta doença associa-se a perda constante de urina causando mau cheiro, o que origina a um desconforto a quem padece dela e, em muitos casos, os doentes contraem ulcerações ou queimaduras nas pernas, ou até mesmo consequências mais graves como a morte materna, pois a situação pode levar a uma septicemia (infecção generalizada).
Fernanda e Joana estão entre muitas outras meninas e mulheres que sofrem com a perda do controlo da urina e vivem uma vida desesperançada,envergonhada, descriminada pelo marido, familia,levando-as em muitos casos a viver isolada da comunidade ou a cometer suicídio”A vida da mulher torna-se uma lástima, vocês podem imaginar o que é perder urina constantemente 24 sob 24 muitas delas desesperam-se e tentam o suicídio, ou por vezes abandonadas pelas famílias. É uma vida intolerável, liberta mal cheiro, ninguém aproxima-se dela”relatou o Cirurgião Paolo Parimbele em reportagem no Telejornal de Angola (dia 23 de Maio).
As mulheres e meninas com estas patologias geralmente são afectadas psicologicamente por conta dos danos causado pela rejeição social e isolamento, pois maioria das vítimas acabam por ser abandonadas pelos maridos, pela família e pela comunidade, que as discriminam por não aguentar o odor constante da urina e das fezes.
Apesar dos esforços do Ministério da Saúde em tentar mitigar os enúmeros casos existentes no país já tendo realizado cirurgias a mais de 500 mil mulheres com fistula obstétrica na maternidade Lucrécia Paim onde uma das beneficiárias foi a Fernanda” agora estou melhor, já me sinto mais feliz e aconselho a todas as mulheres que também se encontram nesta condição a procurar ajuda”desabafou a menina . Porem, a triste realidade mostra que a fístula obstétrica continua sendo um problema desigual grave na saúde pública das mulheres angolanas,particulamente as meninas e mulheres que engravidam pela primeira vez e que vivem em zonas onde o serviço de saúde é deficiente, sendo que as residentes destas zonas possuem serviços de saúde ineficentes e consequentemente enfrentam gravíssimos problemas de saúde materna , entre os quais, a fístula obstétrica, que continua praticamente desconhecida (ou ignorada), condição que pela sua gravidade e dimensão deveria ser tudo menos ignorada pela sociedade, pois as consequências desta doença são devastadoras, não só pela perda (potencial) dos filhos como pela rejeição social e isolamento a que são votadas: nove em cada dez bebés não sobrevivem a partos prolongados/obstruídos e o pior é que a maioria destas mulheres nem sequer tem acesso ao tratamento, que passa exclusivamente pela intervenção cirúrgica no caso de fístula obstétrica .
Mediante tal situação, porque que uma doença que causa tantos danos na vida de milhares de mulheres Angolanas e no mundo não é dada a devida importância e tratamento ?
Infelizmente apesar do impacto horrivel que a fístula obstétrica tem na vida de muitas mulheres angolanas e mundo a fora, este é um tópico relativamente negligenciado, isto é, existe pouca abordagem sobre o assunto. Segundo Sarah Omega, da Fistula Fundation (Fundação Fístula), as fístulas obstétricas não são “bacanas” de serem discutidas. “É possível que exista o factor ‘nojo’ que detenha as pessoas de conversar sobre o assunto”. Como resultado, a maior parte das meninas e mulheres com esta condição não sabem nem que tipo de doença estão enfrentando muito menos sabem se existe tratamento ou onde recorrer no caso de contracção da doenca.
A pobreza é tambem apontada como sendo um factor responsável. A maioria das mulheres e meninas que sofrem de fístula são pobres e possuem incapacidade de receber tratamento médico imediato que não as priva apenas da sua saúde e dignidade, mas que tambem viola dos seus direitos humanos,particularmente aquelas que vivem distantes das unidades sanitarias ,e aquelas que com muito esforço encontram uma unidade sanitária, presenciam situações precárias e sem condicões de serviços de saúde tornando o acesso ao tratamento mais dificil.Como consequêcia, muitas destas mulheres e meninas acabam não se beneficiando dos cuidados adequados de saúde reprodutiva,entre elas a assistência durante o pré natal e assistência durante o parto,representando a condição extrema de desigualdade de genero e exposição há um risco maior de sofrer diversas complicações,dentre elas a Fistula Obstetrica. Especialistas argumentam que o agravante da situação é o machismo, ao que Sarah Omega rebate: “Não sei sobre sexismo, mas sei que as fístulas impactam as mulheres pobres, que são as que têm menos voz no mundo. O problema nunca será totalmente resolvido até todas terem acesso ao tratamento de qualidade que merecem”.
Existem outros varios factores que impactuam na existência da Fistula em Angola,tais como as normas culturais e tabus culturais que ditam que as mulheres estão mais seguras dando a luz em casa , falta de informaão sobre os cuidados a ter durante o pré natal,violacao sexual, casamentos e gravidezes na adolescencia e abortos .
Com tudo isto,o que pode ser feito para diminuir este problema de desigualdade social para as mulheres?

O sucesso dos tratamentos cirurgicos realizados na maternidade Lucrecia Paim tem servido de testemunha para a propagação da palavra perspectivando-se um aumento no número de casos reportados de fistula Obstetrica ,que segundo o especialista em ginecologia obstétrica, Domingos Zangão “muitas mulheres encaram a fistula obstétrica como um problema social e não revelam que estão com este problema por vergonha, por isso o diagnóstico é feito quando o paciente já se encontra num estado crítico”. Por isso espera-se que a divulgação positiva das sobreviventes da fistula sirva de incentivo para as outras mulheres na mesma condição,especialmente se o tratamento continuar a ser gratuito.
O governo precisa melhorar as Unidades Sanitárias no país , incluindo medidas de ampliação de serviços de saúde reprodutiva, serviços especializados e treinamentos de profissionais de saúde e dos médicos para a realização da cirurgia (que tem mais de 90% de sucesso) e disponibiliza-los nas zonas mais remotas do nosso pais,afim de garantir maior qualidade pré-natal para grávidas e partos realizados em boas condições . “Precisamos identificar o problema na paciente assim que ele estiver surgindo. Minimizando o sofrimento, maximizamos as chances da mulher se ver feliz, saudável e livre da fístula”, reforça Sarah Omega.
Para Soja Orlowski, da Worldwide Fistula Fund, a erradicação da fístula obstétrica envolve a reintegração da pessoa à sociedade e ajuda psicológica.“Mulheres que sofreram com fístulas são evitadas pelas suas comunidades e deixadas de lado pelos seus maridos. Elas encontram muita rejeição e humilhação”, conta a especialista e o aconselhamento precisa ser incorporado ao tratamento para ajudar as mulheres que passaram por esse tipo de experiência traumática para que elas possam retornar às suas casas com confiança e propósito” explicou.
Os casos de Fistula Obstetrica devem ser abordados com mais frequência pelas unidades sanitárias principalmente durante as consultas pré natal, e de igual modo nos canais televisivos,radiofonicos e campanhas de sensibilização de modo a garantir que todas as mulheres e meninas estejam informadas sobre os metódos de prevenção e tratamento se depararem-se com esta doenca antecipadamente, principamente as que residem nas zonas vulneraveis ou remotas do pais.
Especialistas acreditam que o treinamento de parteiras locais afim de auxiliarem situações emergentes nas zonas de dificil acesso e ajudarem as mães a terem partos seguros é um meio de diminuir os riscos de contrair a doenca.pois diante de um possivel parto elas poderão avaliar se uma mãe está tendo dificuldades para dar à luz e buscar ajuda antes que seja tarde.
O governo precisa dar maior visibilidade a punição resultante de violência contra as mulheres no mundo, não importando a tradição, a cultura, ou qualquer outra coisa que neste sentido, viola o direito à vida e a dignidade humana, para que estes males possam ser erradicados.
Em alto grau, é hora de Angola e o mundo atenderem ao chamado feito pelos Estados-membros das Nações Unidas na Resolução das Nações Unidas sobre o Fim da Fístula de 2018, na qual eles se comprometeram a erradicar a condição dentro de uma década ,e para esse objectivo seja alcançado precisamos maiores investimentos, inovações ,parcerias e o empenho de todo cidadão Angolano de modo a garantir que ninguem fique em desigualdade nos seus direitos de saude sexual e reprodutiva muito menos que nenhuma menina ou mulher possa sentir-se privada da sua dignidade, esperanças e sonhos. A fistula e uma violacao dos direitos humanos que deve ser aniquilada.

Margareth Patricia da Cunha Couto Morais Malomalo,é a Gestora Financeira e de Patrimonio da Associação Mwana Pwo, uma organização não-governamental e sem fins lucrativos sediada na província da Lunda Sul em Angola, cuja missão é inspirar a liderança de mulheres jovens em saúde e direitos sexuais e reprodutivos através do desenvolvimento de liderança, formação em direitos humanos e democracia e capacitação.