RESISTÊNCIA ECONÓMICA DAS MULHERES

Vozes de resistência

Lídia, Praticante de “Sócias” (Entrevista)

Lídia, é uma angolana de 45 anos, nascida na província do Kwanza Norte, mas que vive há alguns anos na província de Luanda, no município de Cazenga. Fez-nos saber que tem uma relação conjugal, mas o seu esposo tem outras famílias, por isso, ela vive mais tempo com os seus cinco filhos. Tem a 10ª classe concluída. Nesta entrevista, ela responde-nos a questões sobre o seu dia-a-dia enquanto mãe e provedora do sustento da sua casa, a sua expriência enquanto praticante da solidariedade económica com outras mulheres, vulgo “Sócias”. Por este meio, ficamos a conhecer a sua história de resistência.

Ondjango Feminista (OF): Saudações Lídia! Como você e a sua família estão?

Lídia: Estamos bem, obrigada.

OF: Desde já, agradecemos por nos ceder esta entrevista para partilhar um pouco do seu quotidiano connosco. Podemos começar?

Lídia: Sim, podemos.

OF: De quem é a responsabilidade de trabalho e cuidado em sua casa(quem trata da casa e das crianças)?

Lídia: A responsabilidade é de todos. Mas no caso da comida a confeição é mais minha responsabilidade e da minha filha mais velha de 17 anos.

OF: Como é feita a divisão de tarefas em sua casa?

Lídia: Aqui a responsabilidade é mesmo de todos. Todos participam nas tarefas.

OF: Como acha que a destribuição de tarefas dentro de casa deveria ser feita entre as meninas e os meninos?

Lídia: Na minha casa todo mundo trabalha igual. Falei de mim e da minha filha mais por causa da comida, mas o meu segundo filho já está a aprender a cozinhar para ajudar nisso também.

OF: Qual é o tempo que sobra para cuidar de si e das suas coisas pessoais?

Lídia: Não costumo ter tempo para mim. Só para dar exemplo, eu até tenho que trançar o cabelo à noite.

OF: Desde quando desenvolve essa forma de solidariedade económica/sócia?

Lídia: Desde 2006.

OF: Por que razão escolheu essa forma de sociedade e de acesso aos produtos?

Lídia: É porque os produtos estão muito caros. Na sociedade com outra mulheres, por exemplo, eu posso chegar a ter a 20.000kz e daí comprar a metade de 4 ou 5 produtos diferentes para não faltar nenhum.

OF: Quais são os produtos que adquire por meio da sociedade com outras pessoas? Aonde os adquire? Tais produtos também são consumidos em casa?

Lídia: Normalmente, os produtos são o arroz, a fuba, o vinagre, a massa tomate, o macarrão, o açucar e o sabão. Mas não compramos caixas, compramos em pequenas quantidades. E compramos os produtos em Viana, nos armazéns e na praça do kikolo também. Destes produtos, também tiro para o meu consumo.

OF: Vende no local onde vive? Ou precisa se deslocar?

Lídia: Vendo na minha porta, montei uma bancada. Eu tenho problemas de saúde na coluna, por isso não costumo me deslocar.

OF: Qual é o seu rendimento diário ou mensal?

Lídia: Não costumo ter rendimento, porque é com esse negócio que pago todas as minhas despesas, principalmente a comida. E, as vezes os vizinhos pedem fiado e dizem que vão pagar no final do mês, mas demoram a pagar, e assim fica ainda mais difícil ter um rendimento. Mas o importante é que o negócio não vá abaixo.

OF: Em que mais gasta o que ganha?

Lídia: Gasto com energia e a água porque não temos nas torneiras. É preciso sempre pagar a mão de obra dos homens que trablham nas ruas a carregarem recipientes de água por nós. Gasto também com as propinas escolares das minhas filhas, elas estudam numa escola missionária. E gasto com comida, às vezes também tenho que comprar peixe, carne ou frango.

OF: Consegue fazer alguma poupança pessoal ou algum investimento

Lídia: Não.

OF: Quais são as vantagens e desvantagens de fazer sócia?

Lídia: A vantagem é que nos ajuda a suprir algumas necessidades. Também dá-me a possibilidade comprar outras coisas quando me associo a outra pessoa. Adesvantagem é que há senhoras que usam duas blusas: você dá o dinheiro e elas fogem por uma porta, trocam a blusa para não lhes reconheceres mais. Infelismente, há mulheres que vêm mesmo só para roubar o dinheiro das outras.

OF: Como é que a crise que o país vive afectou a sua actividade de sócia?

Lídia: O coronavírus nos trouxe mais dificiuldades nos casos dos transportes. Há limitações  de circulação com o estado de emergência. Os taxistas estão a fazer rotas muito curtas, por isso perdemos muito dinheiro nos táxis. Muitas vezes temos que andar a pé com os nossos produtos depois de os adquirir, correndo riscos.

OF: Como faz para contornar as dificuldades?

Lídia: Tenho falado para mim mesma que não vou desistir e as minhas amigas da venda me ajudam muito também.

OF: Com estas batalhas todas  que mundo acha que as mulheres estão a construir?

Lídia: As mulheres são a esperança do amanhã! O mundo sempre foi governado pelos homens e para os homens e sempre vemos sofrimento. As mulheres estão a construir um mundo próspero e acolhedor, por isso eu trabalho e batalho para poder estar entre as mulheres que estão a desenvolver a sociedade , ainda que seja sem o reconhecimento.

OF: Que tipo de apoio o governo deveria vos dar?

Lídia: Deveriam reunir com os empresários maiores e ver formas de como ajudar os mais carentes. Nós de baixa renda sofremos muito, muito mesmo. As coisas estão muito difíceis.

OF: Está satisfeita com o que faz? O que gostaria de fazer além disso?

Lídia: Estou satisfeita porque hoje consigo comprar em alguma quantidade para meter comida em casa.

OF: O que tem a dizer da actuação da fiscalização? Como acha que devia proceder?

Lídia: Os fiscais são chatos. Eu vendo na minha porta, mais ainda assim estão sempre a me chatear. Por isso, quero acabar a minha cantina para vender lá os meus produtos. Os fiscais precisam de uma boa formação para saber como agir com os vendedores. Acho que eles deviam conversar mais e ter mais amor ao próximo.

OF: Como se vê daqui a 5 anos? Como gostaria de se ver daqui a 5 anos?

Lídia: A minha visão do futuro não é só para mim: gostaria que daqui a 2 ou 3 que nós todos pudéssemos ter energia elétrica e água sem limitações; gostaria de poder me desclocar à vontade e saudável. Também espero que as crianças possam ter uma alimentação regrada e bem-estar, que se possa construir uma Angola melhor e sem fome.